Ver a pessoa, não o diagnóstico

O seu ente querido é mais do que um diagnóstico. Este artigo encoraja os cuidadores a ver a pessoa por inteiro – a sua história, personalidade e dignidade – em vez de filtrar tudo através da lente da demência. Como os vê molda como eles se sentem vistos. Esse reconhecimento é um presente.

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Ver a pessoa, não o diagnóstico

Mais do que um rótulo

Após um diagnóstico de demência, algo subtil pode mudar na forma como vemos o nosso ente querido. De repente, cada palavra esquecida, cada pergunta repetida, cada momento de confusão parece apontar para a condição. O diagnóstico torna-se uma lente através da qual tudo é observado. Isto pode fazer parte do choque silencioso de um diagnóstico precoce.

Mas o seu ente querido é muito mais do que um diagnóstico. Aprender a ver a pessoa – plena e completamente – é uma das coisas mais amorosas que pode fazer.

A pessoa existia primeiro

Antes do diagnóstico, havia toda uma vida. Décadas de experiências, relações, conquistas, alegrias e tristezas. O seu ente querido é pai ou mãe, cônjuge, amigo, colega. Tem histórias, preferências, particularidades e sentido de humor.

O diagnóstico não apaga nada disso. Acrescenta algo novo ao quadro, mas não substitui o que já lá estava.

Resistir ao olhar médico

É fácil cair em ver o seu ente querido com olhos médicos – acompanhando sintomas, anotando mudanças, categorizando comportamentos. Embora parte disto seja necessário, também pode reduzir um ser humano complexo a um conjunto de défices.

Tente equilibrar a consciência médica com a consciência humana. Sim, há mudanças a gerir. Mas também há uma pessoa para amar, para apreciar, para estar presente. Recursos como o SNS 24 oferecem orientação sobre abordagens centradas na pessoa.

Preservar a dignidade

Quando vemos apenas o diagnóstico, arriscamos tratar o nosso ente querido como menos capaz, menos digno de respeito, menos completo. Podemos falar dele como se não estivesse presente. Podemos tomar decisões sem o consultar. Podemos oferecer pena em vez de parceria.

Ver a pessoa significa proteger a sua dignidade – envolvendo-a nas decisões, respeitando as suas preferências, falando com ela com o mesmo respeito de sempre.

O que os outros veem

A forma como vê o seu ente querido influencia como os outros o veem. Quando dá o exemplo tratando-o como uma pessoa completa – com história, personalidade e valor – os outros seguem o seu exemplo.

Apresente-o por quem é, não pela sua condição. Fale dos seus interesses e conquistas. Deixe claro, através das suas palavras e ações, que esta é uma pessoa que vale a pena conhecer.

Procurar a pessoa na sua totalidade

Treine-se para notar o que ainda está lá, não apenas o que mudou. A forma como ri. As comidas de que gosta. As expressões no seu rosto. Os gestos que são unicamente seus.

Estes são os fios da identidade que tecem quem a pessoa é. Podem ser mais difíceis de ver por vezes, mas ainda lá estão. Ferramentas concebidas para preservar a memória e a identidade podem ajudar a cultivar estas ligações.

A sua relação não é sobre a demência

A sua relação com o seu ente querido não é definida pelo diagnóstico. É definida por décadas de experiências partilhadas, por um amor que atravessou muitas estações, por uma ligação que precede qualquer rótulo médico.

O diagnóstico faz parte da sua realidade atual. Mas a relação é muito maior do que isso.

Uma prática diária

Ver a pessoa por trás do diagnóstico não é uma decisão tomada uma única vez – é uma prática diária. Alguns dias será fácil. Noutros dias, os desafios tornarão mais difícil.

Mas cada vez que escolhe ver a pessoa na sua totalidade, oferece algo precioso: o reconhecimento de que ainda está aqui, ainda importa, ainda merece ser vista. Isso é um presente inestimável.

Escrito por

Inês Carvalho

Inês Carvalho

A memória como prática partilhada

Escritora e investigadora focada na memória relacional, nas narrativas de cuidado e nas práticas de documentação de longo prazo. Com formação em sociologia e humanidades digitais, o seu trabalho analisa como a escrita partilhada e os registos diários fortalecem as relações, preservam o contexto e apoiam a continuidade entre gerações.

Existe uma maneira mais silenciosa de guardar estes dias.

This Day With You foi criado para acolher os momentos que importam, mesmo quando parecem pequenos.

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